A viagem

16:29


Eu não queria dividir uma poltrona, mas estava escrito: número 08. Havia alguém lá, do lado, fitando a janela com uma serenidade aparente. Eu  conferi o número e me acomodei. Fitei a Janela também, alguma coisa dava um nó na minha garganta, uma parte de mim ficara ali. Quebrei o silêncio, perguntei a minha parceira de viagem se estávamos no destino certo e ela confirmou com sua doce voz. Silêncio quebrado, destravamos as próximas conversas. Com seu jeito simples, me pediu ajuda. Por sua longa idade, pouco sabia “dessas tecnologias cheias de dificuldades”. Me prontifiquei em ajudá-la e, tomada pela sua calma, me dispus a lhe mostrar tranquilamente passo a passo de uma simples tarefa. Ela me pareceu contente com a ajuda. Pouco a pouco, aquela senhorinha de cabelos curtos e olhar arredondado me trouxe paz. O caminho foi reduzido e a tristeza levada embora, uma voz baixinha me dizia que eu estava na direção certa e que logo logo tudo iria tomar seu lugar. Quis deitar minha cabeça em seu colo, quis que fosse a avó que eu não tive, quis pousar um beijo levemente em seu rosto e agradecer pela sua paciência que me fazia refletir sobre a agitação que me era constante. Entre um assunto e outro, ela me cuidou e me confidenciou seus medos diários. Me falou sobre sua solidão. Quis visitá-la, tomar-lhe uma tarde. Ainda que sozinha, me parecia feliz, do tipo bem resolvida. Imaginei sua casinha, suas noites frias e quietas. Quis lhe cobrir quando adormecesse no sofá. É tanta correria, é tanta agonia e no fim da vida, alguém estava bem por viver. Me bastou algumas horas para notar que se pararmos para ouvir o outro, não importando sua idade, sua cor, sua posição social, iremos nos ouvir também. Encontrar nosso ponto de partida e chegada, e notar, com mais precisão, nossos pequenos prazeres. Ela me dava conselhos, preocupava-se com a minha chegada e se me perguntares o quanto me conhecia, posso te responder que nada menos que o meu nome e algumas razões por está ali. Entretanto, quis ver meu brilho, me olhar e ouvir-me com atenção, quis ser ouvida também. Lindo era seu sotaque, seus dedos, seu jeitinho simples...A velhice é de fato uma dádiva para quem sabe tê-la. Os anos lhe eram aparentes em suas feições, em seu sossego. Ela abriu os cintos que se fechavam contra minha quietude...E nem sabe disso. Não demorou para que, enfim, fosse meu momento de deixar aquela poltrona. Docemente, pousei um beijo no alto de sua cabeça e anotei apressadamente meu telefone num pedaço de papel como ela pedira. E, me assegurou que não me incomodaria, mas torci baixinho para que ela me ligasse num dia qualquer e me desse o prazer de ouvi-la outra vez.

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