Barquinho

15:34



"Você sumiu!" Eu sei, eu sei. Eu estive distante do blog por dois motivos: A vida (risos) e um bloqueio textual surreal. Mas, cá estou eu, retomando as atividades e cumprindo minhas próprias metas (ou não). E, para voltar mais do que bem, deixo aqui uma alegria. Sim, essa semana eu fui agraciada por um sentimento em forma de texto. Pouco posso dizer no que diz respeito aos efeitos dele sobre mim, porque são inexplicáveis. Então, pensei: Vou agraciar às pessoas com tanta ternura vestida de palavras. O autor é mais do que especial e fica aqui o meu muito obrigada por sua existência, pelo seu carinho e por alguns motivos mais que se fizeram além do tanto.




Ao longe, o mar se contorcia numa fúria insana. Disso, no entanto, eu só ouvia falar, as notícias vinham voando com os pássaros que posavam no meu bote. Enquanto aquilo acontecia lá fora, o céu imenso era a minha tela, minha imaginação o pincel. Eu ficava ali, pequeno, deitado no barquinho, sem remos, sem vela, apenas uma âncora com um nó que se afrouxava, no meio de uma infinidade de água para onde quer que minha vista podia alcançar.
Eu tinha inveja dos pássaros porque nenhuma âncora podia prendê-los. Eu tinha inveja dos outros que eles encontravam –  dos céus, do alto de suas revoadas – porque eles sabiam nadar, eles também tinham remos e velas e não estavam presos a nenhuma âncora.
Aquele meu diminuto pedaço de mundo era quase todo tranquilidade. Poucas vezes aquele marzinho se agitou, tampouco se contorceu loucamente. Mas foi numa daquelas noites monótonas das quais eu estava bastante acostumado que uma pequena onda agitou o meu barco. Num súbito fragmento de segundo ela surgiu… disse-me depois que já estava rondando por ali há bastante tempo, mas eu, cético e tão perdido na minha insegurança, duvidei.
E ela era linda… aquela noite era pouco demais para que eu pudesse passar toda ela olhando para aquela menina; era tão surreal!
Mas foi aí que o meu pequeno bote começou a chacoalhar numa cólera endiabrada. Eu mal percebi que tudo aquilo se tornou tão intenso. Quando dei por mim, estava totalmente envolvido, mesmo antes que ela me agarrasse, atravessando o meu eu mais escondido, e então ela me puxou para a água. Eu gelei – literalmente. E perdi o fôlego.
Irreal, impossível! Aquilo estava mesmo acontecendo comigo? Logo eu, tão acorrentado ao meu barquinho, logo eu, tão preso por uma maldita âncora. Tão… inseguro. Logo eu, tão eu.
Mas então eu notei que lá embaixo eu não me afogava. Eu estava tão confortável como jamais fiquei com alguém, assim tão perto, assim sentindo nossos corpos. Inflamei-me por dentro. Já não tinha mais inveja dos pássaros. O mar se tornou céu, e, ainda em terra, eu voei.
Senti que somos pares. Pares nos pares, e também nos díspares. Naquele dia ela me entorpeceu. E entorpecido eu voei para um lugar distante como os pássaros em suas revoadas – e, na minha cabeça, revoaram os desejos mais intensos, os sentimentos mais sinceros –, flutuei num sonho bom. E eu não queria mais acordar. Era tudo tão forte e incrível. Ela entranhou tantas certezas em mim…
Logo eu! Eu que sou tão meu, me tornei teu, tão teu. E esses dias eu percebi que eu gosto tanto de você que gostar tanto já é tão pouco.


Eldner Felipe.

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